Retrocesso à vista

solon

O Brasil se consolidou e é reconhecido como o país que mais utiliza a Fixação Biológica do Nitrogênio- FBN em sua agricultura. Trinta e três milhões de hectares de soja são cultivados utilizando as bactérias fixadoras como única fonte de nitrogênio, o nutriente exigido em maior quantidade pela leguminosa. Este fato é reconhecido mundialmente como um dos grandes feitos da agricultura brasileira.

E isto se deve a um trabalho conjunto da pesquisa, da área de legislação, das empresas produtoras de inoculantes, da extensão e do conhecimento de agricultores esclarecidos que adotaram a técnica e anualmente incorporam as bactérias nas lavouras, obtendo elevadas produtividades. A qualidade dos inoculantes no Brasil cresceu extraordinariamente nas últimas décadas e hoje atende, plenamente, a necessidade de elevados aportes de nitrogênio.

Entretanto, apesar de um esforço gigantesco e altamente eficiente de pesquisadores brasileiros de alto nível, apesar dos investimentos em equipamentos e capacitação de pessoal que tem sido feito pelas empresas produtoras de inoculantes, começam a aparecer bolsões de atraso que estão anulando estes ganhos pelo uso de tecnologias rudimentares, totalmente incompatíveis com o nível a que se chegou na agricultura brasileira.

A produção de inoculantes, que consiste na multiplicação de uma bactéria altamente exigente em reatores com todos os requisitos de manipulação asséptica, que requer um pessoal com profundos conhecimentos de microbiologia e de processos microbiológicos e um apurado controle de qualidade em todas as fases, está sendo posta em cheque pela “produção caseira” de inoculantes. Aproveitando-se do desconhecimento de alguns agricultores e da ganância de outros, empresas estão difundindo a produção de inoculantes pelo próprio agricultor, sem a menor condição de assepsia, sem controle de qualidade, sem observação microscópica, enfim, uma “brincadeira” de produção de inoculantes, pura enganação para cima do agricultor, que pensando estar economizando alguns centavos deixando de comprar um inoculante registrado no MAPA opta por esta farsa, que no final de contas vai redundar em prejuízo, em menores ganhos pela ineficácia de um simulacro de inoculação.

Lamentavelmente em uma atividade moderna, com agricultores esclarecidos, existem estes nichos de atraso, onde proliferam as atividades de pessoas inescrupulosas, totalmente descomprometidas com a agricultura brasileira. A FBN é uma tecnologia chave para a produção de soja no Brasil, sendo um dos fatores de competitividade que compensa a perda desta no transporte e outras dificuldades existentes no país. Um ataque contra esta técnica, como esta pseudo produção de inoculantes é um atentado contra a produtividade, contra o agricultor e contra a própria sociedade.

A ANPII já vem estudando este assunto, já entrou contato com o MAPA, mas este nada pode fazer, enquanto a produção for para consumo próprio. Mas infelizmente, dentro da “lei de levar vantagem em tudo”, já se detectou no campo, embora sem se poder documentar, agricultores produzindo este “caldo” e vendendo para vizinhos, no mesmo esquema da semente “saca branca” ou da compra de defensivos piratas, contrabandeados. São todos esquemas ilegais, que trazem a ilusão de uma economia. Agricultores esclarecidos, bem informados, que felizmente são a grande maioria, não entram nestes esquemas de falsificações, nestas farsas de produtos “fajutos”, sem nenhum respaldo técnico. Além do mais, a pretensa economia obtida com estas artimanhas é absolutamente insignificante. Em uma lavoura que hoje custa em torno de R$ 2.000,00 por hectare, o inoculante responde por um custo de cerca de dez reais. Será que vale a pena arriscar o fornecimento do nutriente exigido em maior quantidade pela cultura da soja por causa de alguns poucos reais?

A ANPII continuará em sua cruzada pela qualidade dos inoculantes e pela elevada eficácia da FBN, mas é importante que o MAPA, os consultores, os serviços de extensão rural, o grande contingente de agricultores esclarecidos, enfim todos os que tenham responsabilidade na agricultura se mobilizem em uma campanha de divulgação das boas práticas de inoculação para que nossa soja continue altamente produtiva.

 

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