Pesquisa, a chave para o desenvolvimento

solonA evolução da agricultura brasileira chama a atenção em todo o mundo. De um país que até poucos anos importava alimentos, entre eles leite, carne, e outros, passou para um exportador de alimentos, enviando nutrientes para diversas partes do globo. Hoje, é exportador de proteína animal, soja, café, açúcar, celulose e outros produtos do campo. Mas o que levou o país, em poucos anos, a sair de um importador para um provedor de nutrição para muitos milhões de pessoas em boa parte do mundo?

Lógico que isto não se deve a nenhum fator isolado, mas a um conjunto harmônico de fatos que, somados e de forma sinérgica, levaram a esta atual situação. As condições climáticas do país, com muitos dias de sol, possibilidade de duas ou três safras por ano, água em abundância na maioria das regiões e terras disponíveis para agricultura tem sido um fator decisivo para que a atividade agrícola seja hoje o motor da economia brasileira. Mas o componente   humano desempenha um papel de elevado protagonismo nesta situação.

As pessoas envolvidas na agricultura desempenham um  papel fundamental: de um lado o agricultor, que com tenacidade e espírito para  aceitação da tecnologia possibilitou as elevadas produtividades hoje obtidas no campo e de outro os pesquisadores, em institutos, universidades e empresas privadas que propiciaram um forte  substrato científico, colocando à disposição do agricultor  um amplo leque de opções tecnológicas nos mais diversos recantos do  Brasil e para as principais culturas, sejam as de grandes áreas bem como as de pequenos agricultores.  Claro que não podemos deixar de acrescentar os assistentes técnicos em suas mais variadas vertentes, da área pública, através das Ematers, das cooperativas e das consultorias privadas.

Mas é principalmente da área de pesquisa que vamos falar mais neste artigo. A pesquisa, salvo nos raríssimos casos de “estalo”, de descobertas sensacionais, é feita de um processo, que começa na longa formação e maturidade do pesquisador. Em paralelo vem o equipar dos laboratórios, dos trabalhos de campo, da construção de um arcabouço que vai, paulatinamente, levando a pequenas descobertas que, somadas e de maneira  sinérgica, vão formando  uma rede de conhecimento coletivo que culmina com a obtenção de um arsenal de tecnologias que levam à maior produtividade, à maior rentabilidade dos fatores de produção, como solo, água, nutrientes e tudo o que uma planta necessita para gerar mais e mais alimentos e à maior competividade, hoje um fator decisivo no altamente disputado  mercado internacional.

A geração de tecnologias não se faz aos saltos, mas sim dentro de um processo contínuo e ininterrupto. Uma pesquisa interrompida, seja em qualquer área do conhecimento humano, mas principalmente na agricultura, não pode ter seu prejuízo medido apenas pelo número de anos que esteve interrompida, mas sim por este tempo multiplicado por vários números. Uma pesquisa que se descontinue por um ano, vai ter reflexos por muitos e muitos anos mais.

A produção e o uso dos inoculantes no Brasil tiveram e tem na pesquisa aquele arcabouço científico do qual falávamos no início deste artigo. A seleção de estirpes, os meios de cultivo e tudo o mais que dependa fortemente de ciência mais profunda, é desenvolvido nos órgãos de pesquisa. As empresas, daí para a frente, fazem sua parte de desenvolver protocolos para produção em alta escala, desenvolver embalagens, e tudo o que seja necessário para colocar um excelente produto na mão do agricultor.

Assim, a ANPII vê com apreensão o desmonte que hoje se faz em muitas instituições de pesquisa, com cortes de bolsas, de custeio, de admissão de novos pesquisadores, enfim, uma visão míope que vai nos distanciar dos países que, mesmo em situação de crise, tem a visão de futuro e investem em  mais fortemente em pesquisas, sabendo  que isto é uma ferramenta que vai abrir caminho para sair da crise e entrar em  novo ciclo de crescimento.

Para que o agronegócio continue em sua carreira vitoriosa, por anos a fio, de forma  sustentável, é necessário um  forte e contínuo investimento em pesquisas, que irão  gerar  inovações, permitindo uma competitividade com  as nações mais desenvolvidas do mundo. Se secarem as fontes de financiamento para nossas instituições de investigação científica, este período de sucesso no agronegócio poderá se assemelhar a um “voo de galinha”, ficando uma nostalgia da era de ouro do agronegócio. Diversos países já investem fortemente em novas tecnologias agrícolas e o Brasil não poderá de forma nenhuma perder esta posição de liderança que hoje exerce.

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