solonPor séculos a natureza se encarregou de manter florestas e pastagens em equilíbrio, produzindo alimentos para a pequena população então existente. Algumas intervenções humanas acrescentavam ao solo pequenas quantidades de material orgânico, vislumbrando, de forma empírica, uma maior produtividade. Estercos, restos de cultura, ossos e outros materiais já eram utilizados, via observação, como fontes de nutrientes. Os fenômenos naturais, dentro da dinâmica do solo, abrangendo as alterações físicas, químicas e microbiológicas se encarregavam de manter os níveis de fertilidade suficientes para uma agricultura que abastecia as populações e permitia até mesmo uma já incipiente comercialização intercontinental de grãos.

Com o crescimento populacional explosivo, detectado no século XIX, foi constatado que os métodos tradicionais de cultivo não produziriam alimento suficiente para todos os seres humanos. Iniciaram-se aí, devido aos trabalhos de pesquisa, estudos científicos para se poder produzir mais em uma mesma área. Os trabalhos decisivos de Liebig mostraram o papel dos minerais na nutrição das plantas, abrindo caminho para a larga utilização de fertilizantes químicos na agricultura, culminando com a atual agricultura, quando é exigida uma alta produtividade e para isto é indispensável a utilização de fertilizantes químicos em grande escala.

Assim como a “Revolução Verde” iniciou uma nova era na agricultura, agora já se percebe claramente uma segunda onda onde se busca não só o aumento de produtividade, mas que isto seja compatível com o ambiente, no sentido de prover os nutrientes necessários, mas aliado à uma política de menor uso de recursos finitos ou que causem efeitos colaterais que venham a prejudicar, em um futuro próximo, o próprio conceito de produtividade.

Esta nova revolução, que se delineia muito claramente no horizonte, passa por uma utilização cada vez mais ampla dos recursos biológicos, a mais moderna tecnologia a ser usada na agricultura. Relegada durante anos como uma tecnologia ultrapassada, da “velha” agricultura, a microbiologia do solo desponta como o novo filão para a pesquisa e para as empresas produtoras de insumos agrícolas. Despertada pelo uso massivo dos inoculantes na cultura da soja, com resultados incontestáveis no aumento da produtividade com sustentabilidade, o uso deste insumo vem servindo para sinalizar de modo claro que a microbiologia ainda tem recursos incomensuráveis para que a produtividade possa crescer continuamente com insumos não agressivos ao ambiente ou ao homem.

O advento do inoculante para gramíneas em 2009, com a bactéria Azospirillum brasilense, demostrou que o uso de bactérias poderia ir muito além do tradicional fixador em leguminosas. A utilização de uma bactéria com atuação em mais de 70 culturas abre as portas de um enorme campo de atuação na agricultura.

O uso concomitante dos dois inoculantes, para soja e para gramíneas na cultura da leguminosa abriu um novo campo, uma larga via para as pesquisas e para os agricultores: o uso conjunto de microrganismos, em “coquetéis” cientificamente estudados e recomendados pela pesquisa. Sabe-se que na natureza não há atividades isoladas. A interação entre organismos e estes com o ambiente faz parte da vida em si. Por isto os estudos de consórcio de microrganismos resultarão em novos caminhos não só na área nutricional como na de controle biológico, trazendo novos conceitos e novas práticas na agricultura.

Hoje se estuda profundamente a comunicação, via bioquímica, de microrganismos com plantas, destas entre si e entre microrganismos, em um sentido de comunidades e não de seres isolados. Com o entendimento destes fenômenos e sua utilização racional na agricultura, teremos uma nova era na produção de alimentos.