Agricultura moderna se faz com ciência

solonJá vai longe o tempo no qual o estereótipo do agricultor brasileiro era o “Jeca Tatú”, imortal criação de Monteiro Lobato. Outro estigma que havia sedimentado no imaginário dos habitantes urbanos era de que a agricultura era “atraso” e a indústria era a “modernidade”. Talvez até tenha feito sentido em alguma época, mas hoje, quem ainda pensa assim está totalmente defasado da realidade.

A agricultura brasileira é hoje um exemplo de geração e aplicação das mais modernas tecnologias. Da genética à nutrição, do estudo dos solos e climas ao combate de pragas e doenças, do plantio à colheita, tudo se faz com tecnologias que vão se aprimorando a cada dia que passa. E de onde veio o arcabouço científico para toda esta evolução?

Estávamos acostumados, e talvez ainda estejamos, a ver que toda a evolução científica vem de fora, dos países “adiantados”, de “primeiro mundo”. De fato, em algumas áreas ainda temos grande dependência de conhecimentos gerados fora do país. Mas se há um setor com um índice nacional de geração de ciência e de tecnologia extremamente elevado é a agricultura. Boa parte dos conhecimentos hoje aplicados na atividade rural foi de eventos gerados pela pesquisa e desenvolvimento nacionais.

O marco inicial para o desenvolvimento de ciência e tecnologia aplicadas à agricultura foi a criação da Estação Agronômica de Campinas, em 1987, por ato do então Imperador D. Pedro II (Castro, C. N. 2016), hoje Instituto Agronômico de Campinas. Este foi um marco inicial que iria servir de exemplo para toda a estrutura de pesquisa desenvolvida no país. A experiência foi tão promissora, com resultados altamente compensadores, que o modelo foi replicado em diversas unidades da federação, com a criação de estruturas de pesquisa que mais tarde viriam a ter um papel definitivo na modernização da agricultura brasileira.

Também cabe ressaltar o papel das universidades neste contexto de modernização. Logicamente que o papel primordial das universidades, enquanto escolas, é o de formar profissionais para suas respectivas atividades na sociedade. Mas dentro do conceito universalista, também representam papeis importantes na pesquisa e na extensão. Assim, as diversas escolas fundadas ainda no século XIX e as que vieram a seguir têm um papel de destaque na modernização da agricultura.

A criação da Embrapa em 1973 representou um marco neste processo evolutivo. Três características a tornaram diferencial: Uma pesquisa integrada, orgânica, abrangendo todo o país e praticamente todas as culturas; o fato de ser uma empresa parcialmente livre das amarras do serviço público (poder este muito diminuído nos últimos anos) e a relativa blindagem contra as intromissões políticas, impedindo a nefasta influência nas nomeações e contratações.

A criação desta entidade, com fartos recursos alocados ao longo do tempo, resultou em muitos feitos que fazem a diferença na agricultura brasileira. Mereceria um longo artigo somente para listar os feitos da Embrapa que, juntamente com os demais órgãos de pesquisa, mudou o panorama do agronegócio brasileiro.

Existem muitos estudos, mostrando o excelente retorno dos investimentos na pesquisa agrícola. Figueiredo (2008, citado por Castro, 2016) calcula uma taxa de retorno de R$ 13,67 para cada real investido em pesquisa. O balanço social da Embrapa de 1014 estima um retorno de R$ 8,53 para cada real investido (Castro, 2016).

No que se refere à pesquisa em fixação biológica do nitrogênio – FBN, muitas entidades contribuíram para tornar o Brasil o país líder mundial no uso desta tecnologia. Começando com os trabalhos do IAC, tomando vulto com a FEPAGRO no RS e crescendo com a EMBRAPA, os conhecimentos gerados permitiram o notável crescimento da inoculação no Brasil

Assim, por todo nosso histórico, fica muito evidente a contribuição da pesquisa para a evolução da agricultura o país. Sem ciência, sem desenvolvimento, o agricultor não teria as condições de que dispõe hoje para por em prática todas as tecnologias utilizadas nas lavouras.

Bibliografia citada: Castro, C.N. – Pesquisa Agropecuária Pública Brasileira: Histórico e Perspectivas. Boletim Regional, Urbano e Ambiental | 15 | jul.-dez. 2016 ipea

Compartilhar em: